Bom.

Íntegra da entrevista com o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira (CartaCapital/Edição 586) – Parte 4
CC: E como o senhor vê a discussão no Brasil em torno da valorização do real?
LCBP: O equívoco da ortodoxia é absoluto. Estamos hoje com uma taxa de câmbio inferior à do equilíbrio corrente, entrando naquela área de déficit em conta corrente, quando devíamos estar muito acima, na área do equilíbrio industrial. Então há uma enorme sobreapreciação da taxa de câmbio no Brasil. Se ela não existisse, o Brasil estaria crescendo mais de 7% ao ano, tranquilamente. O Brasil só cresceu 5% nos últimos quatro anos, com exceção de 2009, graças ao mercado interno.
CC: Como o senhor avaliou a criação do IOF de 2% sobre o capital estrangeiro?
LCBP: O IOF foi uma maravilha. Como se administra a taxa de câmbio? Além do imposto para a doença holandesa, eu posso precisar administrar a volatilidade da taxa de câmbio, especialmente quando começa a entrar capital demais. E estamos recebendo capital de que não precisávamos de jeito nenhum, estamos inundados de capital. Então a solução é o controle de capital, que tinha virado nome feio. Controle de capital e proxenitismo eram mais ou menos sinônimos, como, por sinal, o desenvolvimentismo.
Então o Guido teve muita coragem, que fique bem declarado isso, e decidiu fazer um controle de capital, modesto, pequeno, mas que foi uma beleza. A taxa de câmbio já estava em 1,70 e indo para baixo, e até subiu um pouco. Então não estamos mais ao ‘deus-dará’. Outra coisa que se faz, e já estamos fazendo há tempo, é comprar reservas e esterilizar, mas isso tem geralmente uma capacidade limitada.
CC: No caso do pré-sal, economistas do governo e alguns ligados ao Serra sugerem a criação de um fundo soberano. O senhor concorda com a ideia?
LCBP: É claro que vamos precisar de um fundo soberano. Não precisaremos do imposto de 98% dos Emirados Árabes. Com isso, eles têm uma taxa de câmbio perfeitamente neutralizada, correta, que lhes permite ter uma indústria do turismo, que é um setor tradable, e curiosamente estão se desenvolvendo. O único país árabe que se desenvolve, com essa taxa de imposto brutal.
Como o nosso custo de exploração do petróleo é muito mais alto, não precisaremos de uma taxa tão alta. Mas de qualquer forma vamos precisar de um imposto alto. E não devemos gastar todo esse imposto no Brasil, devemos deixar uma parte no exterior, em um fundo soberano, sem dúvida.
CC: O senhor havia mencionado a relação entre salários e produtividade. O senhor poderia falar mais a respeito?
LCBP: O peso dessa relação é muito importante. Um país grande como o Brasil não pode se desenvolver apenas com as exportações. É preciso se voltar para o mercado interno. E a tendência de os salários crescerem menos que a produtividade cria problemas ao tirar demanda. Claro que existem soluções para isso, tenho até um livro sobre isso dos anos 70 e muita gente também escreveu. Eu tratava da concentração da renda na classe média para cima e da especialização em produtos que naquela época eram de luxo, fundamentalmente a indústria automobilística.
E qual era a tese ortodoxa? Dizia-se que não era possível aumentar o salário-mínimo porque causaria inflação, quebraria o Estado. E não quebrou coisa nenhuma. O Fernando Henrique aumentou um pouco, e o Lula aumentou bastante. E vamos reconhecer que foi um grande sucesso essa política. Como o Celso Furtado cansou de escrever, os sindicatos foram fundamentais no desenvolvimento econômico porque têm um papel de aumentar salários. O perigo é quando os salários crescem acima da produtividade, aí os lucros são estrangulados.
A lei fundamental do capitalismo é que os empresários precisam ter boas oportunidades de investimento lucrativo. Eles têm de ter demanda para terem isso. Então precisam de demanda interna e também de uma taxa de câmbio. Esta é a lógica completa do sistema.

1 comment to Bom.

  • Discordo totalmente. Pensamento linear e ultrapassado. A lei fundamental do Capitalismo, hoje: Fluxo livre do Capital. E quem sustenta isso hoje? Tecnologia. Nao pra movimentar o Capital, somente. Mas para expandi-lo.

    O Brasil tem Capital? Tem nada. Compara o ativo de um HSBC e de um Bradesco. Multinacional ‘de peso no mundo’ tem conta parente em Bradesco ou Itau? Ou Banco do Brasil? Tem sim, tah…

    Petrobras? Ces tao brincando…

    Petrobras nao eh Petrobras, eh setor.

    Um pais como o Brasil precisa de educacao! mesmo com desemprego..

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