A Bolsa antecipa a economia?

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As empresas cujas ações vêm liderando os sucessivos recordes de alta do Ibovespa dependem pouco ou nada da recuperação do mercado interno.

José Paulo Kupfer, O Globo.

A Bolsa de Valores brasileira tem vivido um período já longo de sucessivas altas, escalando nos últimos dias para um clima de euforia e o Ibovespa, seu principal índice, registrando recordes.

A visão do senso comum, que faz ligação direta dos movimentos nos pregões do mercado acionário com as perspectivas da economia e, na quadra atual, com as da política, tem sustentado o clima e as cotações. Para onde a Bolsa vai, a economia segue atrás — eis o resumo da ideia disseminada.

Nada, porém, pode ser mais enganoso, e os frequentes episódios de estouro de bolhas de ativos financeiros compõem quase uma regra cíclica na turbulenta história dos mercados. Em especial no caso da Bolsa brasileira, há episódios marcantes de exageros na escalada de cotações sem base em fundamentos econômicos. O boom do início dos anos 70, por exemplo, é um ícone perdido no tempo.

A explosão das cotações, na esteira do “milagre econômico” — ciclo de forte crescimento que se iniciou em 1968 e se esgotou em 1973 (não, 1971) —, levou famílias a se desfazerem de imóveis e veículos para investir na Bolsa.

A euforia terminou em enorme frustração, determinada pela “década perdida” que viria a seguir, e levou uma retração de longa duração no mercado acionário, inutilizando por anos a fio o importante instrumento de capitalização de empresas pela via do lançamento de ações ao público.

Extravagâncias nas cotações frequentaram a trajetória do Ibovespa nas décadas seguintes, mas nenhuma com a intensidade da registrada em 2008. De 73,5 mil pontos em maio de 2008, quando o Brasil consegue o grau de investimento, o Ibovespa despencou para 29,5 mil pontos, em setembro, na esteira do início da maior crise econômica desde 1929, com a quebra do banco de investimento Lehman Brothers.

De volta agora aos recordistas 75 mil pontos e com espaço, segundo analistas, para galgar 85 mil ou mesmo 100 mil pontos, o que a Bolsa estaria antecipando?

Na visão convencional do próprio mercado, a excitação das cotações estaria expressando não apenas os sinais cada vez mais espalhados de recuperação da economia, mas, sobretudo, as perspectivas de consolidação de um quadro político que contempla tanto a manutenção do presidente Michel Temer à frente do governo quanto a convergência para a eleição de um candidato liberal e reformista em 2018.

Existem, de fato, além dessas apostas mais baseadas em desejos, fatores favoráveis a um respiro da economia.

Um deles é o ambiente externo, em que ampla liquidez se alia a sinais de recuperação econômica, cujo reflexo por aqui se expressa por aumento nas receitas de exportações, principalmente de commodities, e injeções diretas de recursos nos mercados de ativos domésticos. Mas o principal é a trajetória de queda dos juros, derivada de uma inflação em recuo acentuado, por sua vez caracterizada por demanda fraca e ausência de choques de alimentos.

A combinação positiva dessas duas variáveis colabora para, a um só tempo, destravar a economia pelo motor do consumo e estimular migrações das aplicações em renda fixa para renda variável — leia-se ações.

Tudo considerado, a capacidade ociosa existente permite prever retomada relativamente fácil da produção, mas também o seu limite, com a volta de pressões inflacionárias e novas altas de juros, prejudicando o mercado acionário, se esse avanço não resultar em novos e consistentes investimentos.

É grande, contudo, o risco de frustração quando se correlaciona sem ressalvas movimentos de Bolsa com processos em curso na economia doméstica. Isso é ainda mais verdade quando se trata de mercados acionários, como o brasileiro, relativamente pequenos e altamente concentrados. Em recente relatório a clientes, o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, sob o título “O Brasil não é o Ibovespa”, destacou esse ponto.

O que vem puxando a Bolsa são ações de empresas cujo desempenho depende pouco ou nada de uma eventual recuperação do mercado interno.

Apenas cinco papéis entre os 60 que compõem o índice respondem por cerca de 40% de seu movimento. Dois são de bancos (Itaú e Bradesco), outros dois são de produtores de commodities (Petrobras e Vale), cujas receitas são fortemente correlacionadas com as cotações internacionais, e o último é de uma empresa que, embora opere no mercado de consumo (Ambev), é bastante internacionalizada, a ponto de obter no exterior quase metade de suas receitas.

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Resistência?

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Você já reparou que a Bovespa está sem “novidades”?

A última grande puxada aconteceu com a declaração de que a Petrobras seria passível de privatização.

Notícia desmentida, posteriormente.

Mas o “estrago” estava feito.

Há mais de 01 ano que a Bovespa vem sendo puxada, quer por “fake news”, como por um noticiário sempre extremamente positivo.

Sim, alguma coisa melhorou, o país esteve paralisado desde 2015 por motivos políticos/midiáticos, algumas commodities foram apreciadas e os bancos, com peso substancial na Bovespa, seus lucros estão execráveis, incomparáveis.

A SELIC caiu, em termos nominais. O impacto psicológico é evidente.

O rendimento real pouco foi alterado.

Mas o fato é que a safra de “boas notícias” parece ter-se esgotado.

Não se fala mais em viés de baixa para a Selic, não há mais FGTS a ser liberado, a situação política azeda a cada dia.

E os bancos privados, escutei hoje, estão bastante desanimados com a área de crédito. Mas não com suas tarifas.

O Brasil sobrevive, capenga.

Será que isso é bom?

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